Mistérios Gulosos

O quarto espetáculo realizado dentro do Projeto Pantagruel tinha como tema a gula. Como o projeto se voltava às questões do fim do milênio, Mário Viana explorou também aspectos da virada do primeiro milênio, como as acentuadas referências à manipulação da fé. O conflito de três gordos que não podem comer para manter suas almas leves para entrar no céu, as relações mundanas de um padre e uma mulher de moral avançada para seu tempo, junto às malandragens de um esfarrapado que se faz passar por anjo, traduzem o tom iconoclasta da farsa. Abaixo, texto do autor sobre a sua primeira experiência dramatúrgica com o grupo.

Outros Tempos

No começo dos anos 90, quando os animais falavam e as loiras pensavam, iniciei uma pesquisa sobre Idade Média, a pedido do grupo Circo Graffiti, da atriz Rosi Campos. Do período medieval, passamos ao Renascimento, atraídos por François Rabelais, Pantagruel, Erasmo de Roterdã e Thomas Morus, entre outros malucos. Foram dois anos de trabalho, sem resultado prático – a peça que deveria sair não saiu.
Corta para 1999. Os Parlapatões resolvem encarar Rabelais e o diretor do grupo, o Hugo Possolo, comete a insensatez de me convidar, junto com o também autor Avelino Alves, a montar um Projeto Pantagruel. Em vez de ficarmos naqueles workshops onanísticos, faríamos peças curtas abordando os temas pantagruélicos: comida, bebida, religião, sexo, escatologia… Testaríamos com o público o efeito das cenas, das piadas, dos assuntos.
Minha primeira investida foi relativamente comportada. Mistérios Gulosos seria apenas uma historinha sobre a exploração religiosa na Idade Média. Inspirado por livros de História do Comportamento, decidi contar as aventuras dos aldeões gorduchos que cismam de emagrecer para poder subir aos céus – os anjos não conseguem levar as almas gordas pras nuvens. Havia ainda os vendedores de relíquias e os fabricantes de artefatos abençoados. Junte-se tudo num mesmo cenário e está feita a comédia…
Não sei se é bom ou mau sinal, mas a peça revelou uma tremenda atualidade: continuam existindo, em plena atividade, os manipuladores da fé alheia. Suas vítimas são os malandros-coitados, aqueles que tentam se dar bem, mas acabam quebrando a cara na primeira esquina. Quer dizer, no fim das contas, é lobo comendo lobo… Epa! Olha aí a atualidade do François, do Erasmo, do Thomas, do Nicolau…Que danadinhos.

Mário Viana

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Ficha Técnica

Texto:
Mario Viana

Direção:
Hugo Possolo

Elenco: Hugo Possolo, Raul Barretto, Claudinei Brandão, Melina Anthis e Fabiana Prado

Direção Musical: Abel Rocha
Cenografia: Hugo Possolo
Figurino: Luciana Bueno e Olintho Malaquias
Iluminação: Marcos Loureiro e Hugo Possolo
Fotografia: Luiz Doro
Programação Visual: Agentemesmo Produções Gráficas
Secretária: Lílian Haddad
Realização:
PARLAPATÕES, Patifes & Paspalhões, da Cooperativa Paulista de Teatro

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