Em 98, estreou, em realização conjunta com o Sesc Pompéia, o espetáculo Não Escrevi Isto. Montado com o Prêmio Estímulo, o espetáculo recebeu indicação na categoria de Melhor Direção ao Prêmio Mambembe e foi vencedor na Categoria de Melhor Cenografia do Prêmio Shell.

Texto de direção de Hugo Possolo, que fez o texto a partir de uma lista de coisas que indignavam as pessoas com as quais convivia. Inspirada por um poema de Jacques Kerouac, da geração beatnik de William Burroughs, a peça fecha a trilogia do autor que traz a morte como tema.

Na trilogia, Sardanapalo, montada em 93, tratava da morte do ponto de vista de alguém que tinha muito a conquistar em vida. Em Zèrói, de 95, a imortalidade alterava o sentido da vida. Em Não Escrevi Isto, a vida era analisada por um mendigo que acabou de morrer. Acentuava a ótica que um morto tem sobre a vida. Enfim, a trilogia tratava do tema morte para falar, através da comédia, sobre a vida, sobre a humanidade em conflito com sua própria natureza.

O espetáculo tinha uma grande estrutura cenográfica que ocupava duas quadras de esportes do Sesc Pompéia. Dentro dela, todos podiam viver as sensações sugeridas, além de seu aspecto teatral, mas também pela visitação ao inexplorado dos ambientes de uma trama fragmentária sobre a vida do mendigo Maneco Vira-Prego.

Ao entrar na sala, o público era conduzido por um túnel vermelho e tortuoso a uma arquibancada. Esta arquibancada era móvel e os levava em direção aos diversos ambientes onde acontecia a história. Eram sete etapas distintas: os fundos de um restaurante; sua parte interna, um cemitério; outro ângulo dos fundos do restaurante; um ambulatório; a rua e uma feira livre. Depois a arquibancada era recuada, enquanto os atores atuavam andando em sua direção.

O público, então, era conduzido, através do mesmo túnel vermelho para dentro de uma igreja evangélica, onde participavam de um culto. O local se transformava em uma sala de júri. Em seguida, todos eram levados a um ambiente insólito, cercados sacos de lixo coloridos, onde assistiam ao suicídio de um dos personagens. Por fim, eram colocados diante da porta de saída, uma imensa porta de garagem, onde assistiam às três versões da morte de um mendigo.

Este mendigo, aliás uma personagem recorrente aos textos da trilogia, aqui se apresentava como fio condutor de várias histórias que se intercalavam.

Todas as situações se uniam pelo âmbito da traição. Do adultério ao amigo que passa o outro para trás por dinheiro, de religiosos e políticos enganando o povo e seus supostos ideais, ninguém escapava. Até Cristo e Judas entravam nos delírios de morte de Maneco. Judas tentava provar que foi Cristo quem o traiu. Tudo acontecia na mente de Maneco, como aquele filme rápido que dizem passar quando chega a nossa hora. Vários flashes, aparentemente sem sentido construíam uma trama exagerada. Uma hipérbole sobre nossos dias.

O exagero, em Não Escrevi Isto, buscava manifestar o tamanho da perplexidade e indignação com temas e fatos constantes mais contemporâneos, indo da AIDS à nossa descaracterização cultural, do nosso desconhecimento histórico à busca por uma religiosidade, misturando realidade e ficção.

Fatos verídicos eram forte referência na história, como o caso do ex-bailarino do Cisne Negro, Jairo Setti, que passou a viver nas ruas como mendigo. Ou ainda história do índio Galdino, que foi queimado vivo enquanto dormia em um ponto de ônibus em Brasília.

FICHA TÉCNICA

Texto e Direção:
Hugo Possolo

Elenco:
Hugo Possolo, Raul Barretto, Linneu Dias, Jacqueline Obrigon, Henrique Stroeter, Alexandre Roit, Edson Montenegro, Claudinei Brandão e Sílvia Handro

Participação Especial: Fredy Állan
Cantores: Camila Lordy Costa, Priscila Borges, Fabiana Lian, Alexandre Galdino e Juliano Suzuki
Direção Musical: Abel Rocha e Rodrigo Vitta
Cenografia: Hugo Possolo e Luciana Bueno
Figurinos: Luciana Bueno e Olintho Malaquias
Instrumentos e Esculturas Sonoras (Criação e Construção): Fernando Sardo
Iluminação: Alexandre Roit
Cenotecnia: Jeti Produções
Acabamento: Equipe de estagiários e colaboradores
Costureira: Edi Neuma
Assistente de Direção: Marcos Loureiro
Assistente de Produção: Luís Alex Tasso
Assistente de Cenografia: Adrián Maurício
Assistente de figurinos: Joyce Roma
Confecção de inflável (celular): Beto Lima
Estagiários de Produção*: Alexandra Bortolin, Renata Paschoal e Roselaine Araújo
Estagiários de Direção: Denise Augusta, Maristela Teodoro e Ernandes Araújo
Estagiários de Cenografia: Ana Tomioka, Adrián Maurício, Neto Venâncio, Fernanda Bley, Renata Borba, Juliana Bertoilini, Débora Murakami, Paulo Evaristo, Daniel Nogueira de Lima e Roney George
Estagiária de Figurino: Adriana Chung
Contra-Regras**: Adrián Maurício, Daniel Nogueira de Lima, Fernanda Viacava, Luciana Viacava e Sueli Andrade
Operador de Luz: Ricardo Silva
Programação Visual: Luciana Bueno e Terra Brasilis
Assistentes de Iluminação: Alex Saldanha e J.J. Junior
Produção Executiva: Orlando Brandão
Administração: Luiz Alex Tasso
Secretária
: Cláudia Gianini
Realização: PARLAPATÕES, Patifes & Paspalhões, da Cooperativa Paulista de Teatro.

*Estagiários selecionados no Projeto Parlapatões Grupo Residente, realizado na Oficina Cultural Oswald de Andrade, da Divisão de Formação Cultural, da Secretaria de Estado da Cultura.

** Exceção feita em relação às outras fichas técnicas publicadas, foram mantidos os técnicos, por se tratarem em sua maior parte de integrantes das oficinas realizadas.