As Nuvens e/ou Um Deus Chamado Dinheiro

Ao completar seus doze anos de atividade, os Parlapatões montam duas peças de Aristófanes, engendradas em um único enredo: As Nuvens e Um Deus Chamado Pluto. Na adaptação de Hugo Possolo, o título ganhou o status de folha de cheque de conta conjunta: As Nuvens e/ou Um Deus Chamado Dinheiro.

A marca parlapatônica do humor ágil, com jogos de improviso e participação intensa da platéia, ganha os ares contemporâneos na antiga comédia grega. Simplesmente porque em Aristófanes todos estes elementos, fundamentais da relação do homem com o seu tempo através do riso, já estão contemplados.

O teatro de Aristófanes, principalmente aquele que integra a sua obra no período da Comédia Antiga, é um contundente e sarcástico manifesto contra os elementos que ele julgava responsáveis pela decadência de Atenas.

Se tomarmos todas as decadências da civilização Ocidental como parâmetro do momento histórico que vivemos, a obra de Aristófanes se atualiza de maneira assustadora.

Com suas tramas trançadas, as duas peças tratam da vida de dois homens no limite do desespero. Estrepado, um homem rico, vê o filho metido em corridas colocando em risco sua fortuna; e outro, Crédulo, um pobre que não se conforma em trabalhar, ser honesto e ainda assim não se tornar rico. Ao transferirem aos Deuses a responsabilidade por aquilo que consideram injusto, caem em ciladas parecidas, cujas saídas são bem diferentes. Estrepado procura o filósofo Sócrates para ajudá-lo. Na adaptação Sócrates se torna Wall Street, um defensor de ideais da globalização. Estrepado é convencido de que o verdadeiro Deus, acima de Zeus, são as Nuvens. Wall o leva a crer em que tudo é possível, até o raciocínio mais injusto.

Já Crédulo, orientado por um oráculo, segue um andarilho cego. Descobre que o andarilho é o Deus Pluto, deus do dinheiro. Crédulo faz de tudo para recuperar-lhe a visão, além de aproximar todos os homens pobres e honestos no intuito fazê-los ricos também.

A junção das duas comédias em uma única trama, traduz a maneira como Aristófanes viu o papel nocivo dos demagogos na destruição econômica, militar e cultural de seu tempo.

A montagem dos Parlapatões visa um diálogo do texto com situações atuais, incluindo personagens de terno e gravata e cenas nas quais os atores improvisam sobre notícias do jornal do dia.

Uma mistura de sons eletrônicos faz a base, o drum base, de uma trilha que perpassa pelo contemporâneo, ironizando as modas que vão e vem. Músicas que ironizam os apelos românticos, e ao mesmo tempo colonizados, de nosso país.

O cenário em estilo hightec, de piso em alumínio, revela uma estampa gigante de uma nota de cem dólares, onde se lê: “In God we trust”. O verso deste telão é branco, onde se projetam algumas imagens, principalmente, a de nuvens, iguais as de tela de computador, em referência direta a Bill Gates.

A iluminação foge dos padrões teatrais buscando referências em exageros típicos de mega-shows. Projeções, fumaça e um certo apelo de rock’n roll inserem as imagens em um contexto diferente, onde até o verde e amarelo nacionais parecem fazer algum sentido.


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FICHA TÉCNICA

Texto:
Aristófanes

Adaptação e Direção:
Hugo Possolo

Elenco:
Raul Barretto, Hugo Possolo, Fábio Espósito, Claudinei Brandão Henrique Stroeter e Pedro Guilherme
Direção Musical e Trilha Sonora Composta: Paulo Soveral
Iluminação: Wagner Freire
Figurino: Cláudia Shapira
Cenografia: Luiz Frúgoli
Assistência de Direção: Marcos Loureiro
Estandinho (substiputo): Daniel Dottori
Preparação Musical: Eduardo Contrera (percussão) e Marcelo Amalfi (guitarra e baixo)
Adereços: Silvana Marcondes
Costura: Cleuza Barbosa
Perucas: Inês Sacay
Cenotécnica: Nélson Silva e Quindó de Oliveira
Objetos de cena: Agentemesmo Objetcts and Subjects
Assistentes de Figurino: Renata Soarez
Contra-Regra: Wagner Lopes e William Amaral
Operação de Som: Eberson Pimentel de Oliveira
Operação de Luz: Marcos Loureiro
Fotografia: Luiz Doro
Tratamento de Imagens: Werner Schulz
Programação Visual: Agentemesmo Produções Gráficas
Produção Executiva: Luiz Alex Tasso
Assistência de Produção: Veridiana Gomes Fernandes
Secretária: Lilian Haddad
Produtores Associados: Marlene Salgado e Ricardo Muniz Fernandes
Produção e Realização: PARLAPATÕES, Patifes & Paspalhões, da Cooperativa Paulista de Teatro

  IMPRENSA

26 de Março de 2003 – São Paulo – Folha On Line

GRUPO PARLAPATÕES MOSTRA ESPETÁUCLO COM A CARA DO BRASIL
O espetáculo “As Nuvens e/ou um Deus Chamado Dinheiro”, dos Parlapatões, está situado num tempo e espaço não-cronológico, em que o teatro é, de fato, uma ação radical, que vai até o fundo do que propõe.
O “show” da trupe paulistana desta vez não veio revestido da máscara italiana. Para nossa alegria e profunda coerência com o que sucede em nosso tempo, veio com a cara do Brasil, com direito, inclusive, a maquiagem da autocrítica.
A peça apresentada na noite de terça-feira (25/3) no palco do Guairinha dentro da Mostra Contemporânea do 12º Festival de Teatro de Curitiba, surpreende de cara pelas escolhas feitas pelo grupo na composição dos elementos visuais e sonoros do espetáculo.
O que se vê nesta peça é um ambiente duro, urbano, um misto de sala de negócios e auditório de programa de TV. O que sucede a partir daí é decorrente desse mote: postura radical, linguagem pesada e nenhum compromisso com a hipocrisia, uma atitude rock and roll (do bom). Ponto para eles.
Os Parlapatões estão mais do que nunca patifes e paspalhões, só que neste espetáculo há uma agressividade acentuada, coerente com o que o grupo diz.
A parábola sobre a condição submissa do brasileiro é desenvolvida a partir da adaptação da obra de Aristófanes: usado aqui como fonte para o desfile das idéias políticas dos comediantes.
Os cientistas sociais chamam de “palco” o ambiente onde os “atores sociais” jogam. Nesta peça o que vemos é o contrário, os atores escancaram as mazelas que os cientistas escamoteiam em suas resenhas: “chamam de guerra o que na verdade é uma carnificina” diz, mais ou menos isso, Estrepado (Hugo Possolo) em determinado momento da peça.
O que o grupo faz não é criticar ingenuamente a postura da mídia, do poder, da publicidade, mas evidenciar o comodismo geral, a apatia em relação a algumas questões urgentes.
Enfim, o espetáculo deve ser visto, principalmente porque os Parlapatões estão, assim como o Brasil, mudando, para melhor no caso do primeiro e, queiramos, também o segundo.
Beto Lanza
11 de Junho de 2003 – São Paulo – Folha de São Paulo
ARISTÓFANES EXPÕE ESSÊNCIA DOS PARLAPATÕES
Grupo conjuga na montagem duas comédias do escritor grego para tratar de questões contemporâneas
Sempre houve algo de Aristófanes nos Parlapatões. Um enredo próximo da fábula, que serve como base para a sátira aberta, politicamente incorreta como toda boa política em teatro, foi o que destacou o grupo desde “Sardanapalo”, de 1993, hoje em sua oitava versão.
O ponto de partida literário, seja ele Shakespeare, Rabelais ou a vida de Alexandre o Grande, alcança uma alta eficiência no contexto do circo e da chanchada. Nessa curiosa síntese de pesquisa erudita com o escracho mais popular está a principal marca parlapatônica. Ser fiel a Aristófanes (448-385 a.C.) é fazer com seu texto o mesmo que ele fazia com a mitologia: transformá-lo em pretexto para o sarcasmo contra as decadentes mistificações de nosso próprio tempo.
Hugo Possolo é hábil nessa transposição em “As Nuvens e/ou um Deu$ Chamado Dinheiro”, onde conjuga dois textos de Aristófanes, “Um Deus Chamado Pluto” e “As Nuvens”: o ataque original contra a filosofia de Sócrates, tema de “As Nuvens”, é inteiramente aplicável à mentalidade “motivacionista” que busca levar ingênuos “empreendedores” a fazer amigos e influenciar pessoas.
Essa idéia fixa de ser um “vencedor” é tratada com a irreverência devida, sobretudo quando as nuvens remetem às estrelas instantâneas da televisão: desautorização pública igual a essa pode ser contada nos dedinhos.
Do “Um Deus Chamado Pluto” é tirado o ataque ao culto principal da nossa época: ao Deus Dólar, que vem descendo até nós, e o Deus Juros, que haverá de fazer o mesmo.
Como toda noção de felicidade e auto-realização parece depender disso, é urgente a libertação pelo riso promovida pelos Parlapatões, que sugerem outros usos para o dólar na catártica cena final da montagem.
Explicações
Curiosamente, quando o texto se cobra a não ser um simples pretexto e força uma narrativa, perde sua eficácia. A combinação das duas trajetórias dos personagens Estrepado, do “Um Deus Chamado Pluto”, e de Crédulo, de “As Nuvens”, o que já é uma complicação do que era eficientemente simples, é interrompida por constantes explicações ao público, para que esse não perca o fio.
Não seria preciso: o público vem não pela história, mas pelo que sabe que os Parlapatões farão com ela. Hugo Possolo põe esse público no bolso só com o timbre de sua voz, Raul Barreto tem pleno domínio de seu tipo, entre canastrão de filme B e Harpo Marx. Sente-se a ausência do terceiro Parlapatão, mas são muito bem vindos os reforços de três outros: além de Claudinei Brandão e Henrique Stroeter, Eduardo Silva, que está para Grande Otelo o que Robinho está para Pelé.
No prumo de Aristófanes, os Parlapatões cumprem plenamente seu papel, mas deixam transparecer também seus limites: como nas reprises tradicionais do Circo, reatualizam as mesmas fórmulas eficazes. Não decepcionam nunca, mas também não surpreendem.
Sergio Salvia Coelho
13 de Junho de 2003 – São Paulo – Estado de São Paulo
IMPRESSÕES TEATRAIS DE UM CRITICO INGLÊS
O Brasil desperta uma série de imagens estereotipadas: extremos de pobreza e riqueza, futebol, favelas, praias e vilas decadentes. Estar em São Paulo me fez ver o lado workaholic, urbano, do País. Estive na cidade para uma conferência sobre dramaturgia contemporânea (no Itaú Cultural, em 29 de maio). Vi-me em prazerosos desacordos com colegas franceses e alemães em questões como a primazia do texto e o poder do teatro político. Mas nossas diferenças européias pareceram arrogantes diante da eloqüente argumentação do representante brasileiro por um teatro descolonizado que expresse as tensões particulares à sua própria sociedade.
Aimar Labaki nos lembrou das recentes lutas do teatro brasileiro. Durante os anos de ditadura militar, de 1964 a 1985, artistas da oposição eram presos, mortos ou levados ao exílio. Hoje o teatro brasileiro encara uma nova série de problemas: em particular, como lidar com as contradições de uma sociedade na qual o capitalismo global convive com a pobreza.
O artista que, segundo o senso comum, fez isso melhor foi Antonio Araújo, cujo Teatro da Vertigem criou uma trilogia que surpreendeu platéias não apenas no Brasil, mas também na Rússia e na Alemanha. Ele encenou suas três peças em uma igreja, um hospital e uma prisão. O Paraíso Perdido, O Livro de Jó e Apocalipse 1:11 combinam uma crítica ao Brasil contemporâneo com a esperança por uma nova Jerusalém. Foi Araújo que trouxe ânimo à conferência ao dizer que o teatro brasileiro precisa se descolonizar e perguntar: “Por que a poesia precisa ser o oposto da política?”
A idéia da poesia aliada à política é fundamental no Brasil. A conferência ocorreu no Itaú Cultural, patrocinada por um dos principais bancos do País, atualmente promovendo uma brilhante exibição chamada Arte e Sociedade, que mostra a longa tradição do País em aliar furor e estética. Nós tendemos a ver a arte socialista como insípida. Mas fiquei maravilhado com a beleza de um quadro no qual Candido Portinari retrata trabalhadores de fazendas de café ou com uma gravura na qual Di Cavalcanti mostra cardeais pregando de púlpitos decorados com dinheiro.
A exibição atesta a teoria sobre a ligação de arte e política. Mas, ao mesmo tempo em que simpatizo com seu anseio por um teatro descolonizado, percebo o paradoxo que faz com que muitas vezes você precise de ajuda externa para encontrar sua própria voz. Em São Paulo, conversei com Silvana Garcia, que tem trabalhado com o Royal Court Theatre de Londres em um projeto de formação de autores locais. Isso não é colonização, mas uma tentativa de ajudar o que Garcia chama de “uma explosão de energia teatral local”.
São Paulo, no entanto, é uma cidade de paradoxos, na qual um banco patrocina uma exibição de arte anticapitalista, por exemplo. E esses paradoxos se estendem ao teatro. Na cidade, você encontra sucessos internacionais como A Bela e a Fera e Grease. Mas há também uma enorme variedade de peças alternativas com preços incrivelmente baixos.
Os espaços mais intrigantes aparecem sob o nome de Sesc. São seis espalhados pela cidade e bancados com dinheiro advindo de impostos. Estive em um construído em uma fábrica antiga, para assistir a um monólogo chamado Bispo, sobre um artista brasileiro que passou 50 anos em um hospital psiquiátrico e hoje é tido como gênio. Mesmo sem saber português, deu para perceber a excêntrica energia do ator João Miguel.
O idioma foi um problema ainda menor na noite seguinte, quando assisti aos Parlapatões, oferecendo sua versão para As Nuvens, de Aristófanes. A comédia foi transformada em uma sátira hilária do grande Deus do dinheiro, do capitalismo global e da enganadora mídia moderna. Um aspecto da vida brasileira retratado são as loiras jovens e vazias à frente de programas de TV para crianças e o ponto alto da peça para mim foi quando um ator entrou no palco na pele da mais famosa desses ícones kitsch e começou a ter relações sexuais com uma boneca. Você não precisa ser brasileiro para perceber o ataque à hipocrisia que transformam TVs infantis em uma forma gratuita de excitação.
No clímax da peça, os atores mostram as bundas e usam o todo-poderoso dólar como papel higiênico. Pode não ser exatamente Aristófanes, mas foi um poderoso lembrete da relação equivocada com a hegemônica porção norte das Américas e da peculiar mistura de protesto e ironia que perpassa o teatro, o cinema e as artes visuais brasileiros. (Tradução de João Luiz Sampaio)
Michael Billington
The Guardian
26 de Junho de 2003 – São Paulo – Estado de São de Paulo
PARLAPATÕES APURAM SUA ARTE
Em ‘As Nuvens’, a trupe mostra humor forjado no atrito entre rua e palco, circo e teatro
O grupo Parlapatões vem apurando sua arte e isso fica evidente na comédia As Nuvens e/ou Um DeU$ Chamado Dinheiro, espetáculo escrito e dirigido por Hugo Possolo, baseado em duas peças de Aristófanes. O origem da trupe está nas performances de rua, na exibição de números circenses, na ironia crítica do palhaço. Em As Nuvens, fica claro que a originalidade e a melhor contribuição da trupe vêm justamente do atrito provocado pela passagem da praça pública para o palco, do circo para o teatro.
Isso porque, ao trocar um espaço pelo outro, o grupo não abandonou a linguagem original – para o bem e para o mal. Para o mal, quando uma prática eficaz é transportada sem ajustes, o que por vezes ocorre. Mas a verdade é que a trupe vem afinando esses ajustes, a cada novo espetáculo.
Bom exemplo é a interação, a participação do espectador, marca registrada da companhia. Quase necessária na rua, para buscar a cumplicidade de um público de passagem, pode tornar-se agressiva no teatro tradicional. Feita de forma descuidada, sem respeitar as diferenças entre palco e rua, a chamada ‘interação’ confunde ‘cumplicidade’ com mero exercício de poder sobre um público ‘refém’ dos atores. Afinal, na rua, o espectador sente-se livre até abandonar o local da representação. No entanto, por diversos motivos, alguns ainda misteriosos, o direito de manifestação parece não pertencer ao público de classe média do teatro nacional. Instalou-se em nossos teatros uma reverência silenciosa. E muitas vezes falsa, porque não significa necessariamente atenção ou admiração. Conversas paralelas ou celulares atendidos são sinais evidentes disso. Ao fim, aplaude-se de pé todos os espetáculos, até os não aprovados.
Em As Nuvens, há momentos em que a luz da platéia se acende e os Parlapatões provocam o espectador a pensar sobre a própria passividade. Algumas das mais sonoras gargalhadas do público – e das melhores gags – nascem nesses momentos de ‘inclusão’ do espectador (explícita, assumida) no fenômeno teatral. Por exemplo, quando a trupe cobra da platéia a manifestação de uma suposta dúvida covardemente calada. Para esclarecê-la, fazem uma hilária transposição para linguagem cênica de ‘notas de pé de página’. Em outro momento, um espectador torna-se instrumento para ‘comprovar’ a veracidade do improviso, cabendo a ele a escolha da notícia, em um dos jornais do dia, matéria-prima de uma das cenas.
Muitos já tiveram a oportunidade de ver um palhaço subindo uma escada. O que deveria ser simples transforma-se em aventura arriscada – e hilariante. E se forem dois palhaços, sai de baixo! Com esse espírito, o palhaço Hugo Possolo adapta Sófocles. Antes de mais nada, opta por ‘duas’ peças. Feito isso, poderia contar uma história, depois outra. Mas não, decide intercalar ambas.
E ainda criar uma inexistente interseção entre elas. Logo na primeira cena, Estrepado, personagem central de As Nuvens, mata Crédulo, o protagonista de Um DeU$. Para ‘facilitar’ o entendimento do público, a partir daí, esses dois personagens narram suas histórias. Porém Estrepado narra a história de Crédulo e vice-versa. Complicado? Que graça teria se o palhaço subisse a escada simplesmente, como qualquer mortal? É desse ir e vir, dessa necessidade de desembaraçar a confusão da trama que os atores tiram graça.
O perigo, claro, é perder-se o fio da história, a reflexão proposta. Na estréia de As Nuvens no Festival de Teatro de Curitiba, em março, a trupe parecia enredada na própria teia. Mas fez ajustes e, na temporada em São Paulo, já é possível acompanhar as histórias, a pertinente atualização dos originais e a reflexão proposta (o bom palhaço sempre propõe uma), sobre como os homens transferem a outros a condução de suas vidas e permitem que falsos deuses manipulem sua persistente crença em um poder superior.
Ainda há momentos, alguns poucos momentos, em que a excessiva e imprecisa movimentação dificulta a compreensão da uma cena ou idéia por trás dela. Em outros, a trupe parece não ter resistido à gracinha, como na cena em que o ‘deus dinheiro’ comporta-se como um conhecido apresentador de TV. Tal associação vai de encontro a todas as outras atribuídas ao personagem, dificultando a compreensão do ‘pensamento’ proposto.
Está muito mais precisa a interpretação de todo o elenco, sobretudo a de Raul Barreto. Recém-integrado à trupe, ressalte-se a contribuição positiva do talentoso ator Eduardo Silva, que se adaptou perfeitamente ao estilo ‘parlapatão’, sem abrir mão de recursos próprios.
Beth Néspoli
07 de Agosto de 2003 – São Paulo – Diário de São Paulo
PARLAPATÕES E A AMBIÇÃO
Em seu novo espetáculo, “As Nuvens”, o grupo alcança um excelente resultado ao criticar o apelo desmedido ao dinheiro
O repertório do Parlapatões, Patifes & Paspalhões, um grupo dedicado ao humor popular, sempre com uma boa dose de crítica social, tem partido de textos ou temas clássicos, adaptados para o palco e atualizados para os tempos de hoje. A vida de Alexandre, o Grande, serviu de referência para o ótima montagem de “Sardanapalo”, sempre reapresentada em versões aprimoradas. Rabelais, o clássico francês, foi o ponto de partida do último grande e divertido espetáculo do grupo.
Agora, com “As Nuvens”, os Parlapatões foram buscar sua inspiração no universo da Antiguidade clássica, no teatro grego, mais exatamente em Aristófanes, o maior dos comediógrafos da Grécia Antiga. Dois textos do autor foram adaptados por Hugo Possolo — o dramaturgo da companhia — e transformados num único texto, onde o objetivo é criticar acidamente a supremacia do dinheiro e do lucro, questionando os valores capitalistas e, de modo mais amplo, os valores e princípios dominantes na sociedade moderna, com sua falta de ética e de solidez nas relações humanas.
Dois personagens principais conduzem a ação: Estrepado e Crédulo. O texto acaba fazendo uma bela mistura, com a habilidade e o talento costumeiros dos Parlapatões, do humor e da crítica, da fina ironia ao deboche mais escancarado. A empatia com o público é total, principalmente quando este é convidado a participar do espetáculo em cenas interativas.
Longe do constrangimento que costuma existir nessas ocasiões, nos espetáculos do grupo o público espera — e gosta muito — de participar. Há um congraçamento que confirma a espontaneidade da relação entre os artistas e a platéia nas montagens desse grupo ativo e marcante na cena teatral de São Paulo.
Isso se deve, em grande parte, não só ao estilo de humor praticado pelos Parlapatões, genuinamente popular, às vezes deliciosamente ingênuo, outras, mais malicioso e debochado, mas também ao clima de informalidade de seus espetáculos e à certeza de se mostrar, no palco, aspectos da vida e da sociedade contemporâneas que retratam, verdadeiramente, a imagem (ou a auto-imagem) popular.
Nesse atual espetáculo, “As Nuvens”, a direção certeira de Hugo Possolo termina deixando solto o elenco — ainda que todos os atores sigam uma linha uniforme de interpretação e de humor — e conta a história em cenas objetivas e ágeis, em que se pode apreciar adequadamente tanto o texto como a pesquisa de linguagem cênica elaborada pelo grupo.
A técnica dos Parlapatões é sempre muito sofisticada, recorrendo à arte circense e, muitas vezes, ao velho estilo das chanchadas nacionais. Assim, temos um espetáculo onde imperam, equilibradamente, a comédia e a crítica inteligente à falta de valores de nosso tempo.
O resultado é que a crítica se torna precisa. Mesmo a metáfora, quando utilizada, é clara e não deixa dúvidas quanto ao questionamento que se pretende discutir: o lucro acima de todos dos demais valores, o dinheiro não como instrumento mas como fim da ação humana, a ausência quase que completa de sentimentos humanos verdadeiros e profundos dando lugar a relações superficiais e rasas.
O elenco da peça é liderado por Hugo Possolo e Raul Barreto, comediantes de alto nível, com trabalhos muito entrosados, mercê da longa parceria, mas com características muito próprias, ambos, cada qual com seu próprio espaço e estilo pessoal. Ao lado deles, também brilham Henrique Stroeter, Eduardo Silva e Claudinei Brandão, todos excelentes comediantes, com desempenhos apurados e um invejável tempo de comédia. “As Nuvens” traz de volta essa trupe cômica da maior qualidade que são os Parlapatões, Patifes & Paspalhões, num espetáculo que marca pelo bom texto e pelas ótima interpretações.
Aguinaldo R. da Cunha

 ESPECIFICAÇÕES TÉCNICAS

 

Equipe para viagens
A equipe é composta por 10 pessoas, não inclusos os motoristas.

No Estado de São Paulo:
Uma Van leva a equipe. O cenário será transportado num caminhão baú Modelo 608 ou equivalente.

Para viagens a outros Estados:
A equipe de transporte aéreo e a carga em caminhão baú Modelo 608 ou equivalente.

Viagens ao Exterior:
Transporte aéreo para equipe e carga.

Dimensões

Palco
Boca de Cena com pelo menos 8 m. Profundidade de pelo menos 12 m.
Cenário 1000kg.
Carga transportada
03 (seis) baús com 1,10m x 0.60m x 0.60m. 61 (seis) embalagens de 2,10m x 0,20m 05 encaixes de ferro de cadeira gigante com aproximadamente 0,70m x 1,20 m x 0,60m cada. 02 cadeiras trucadas. 01 (uma) grua com dividida em seis peças. 03 assessórios de ferro de encaixe na grua.
Tempo de montagem: 12 horas.
Tempo de desmontagem: 3 horas.

Equipamentos Necessários

Rider Técnico

Equipamento necessário para a realização do espetáculo:

CENOTÉCNICA
O cenário é composto de uma persiana vertical (de 06m de altura por 10m de largura) para fixar em uma vara contra-pesada; uma lona sobre o piso (fixação com grampos e fita rosco); uma cadeira gigante (3m de altura por 1,70m de largura por 1,50 m de profundidade) e uma grua.
Necessitamos de rotunda preta em bom estado, com divisão no meio.
Convém ter disponível material para fixação, tais como cordas, cabos, fitas, pregos e grampeador e grampos.

SOM
• 01 (uma) mesa Mackie ou similar de 28 canais por 8 vias.
• 02 (dois) aparelhos de MD (mini-disk), com a função auto-pause disponível.
• 02 microfones de lapela
• 05 microfones de mão com fio e pedestal modelo SM 58 – Shure ou similar.
• Amplificação suficiente para as dimensões do teatro com equalização compatível com a sala de espetáculo. Para garantir a qualidade de som, solicitamos o seguinte equipamento complementar:
• Caixas de sub para PA
• Caixas de média para PA
• Potência Crest-Audio – CA4
• Potência Crest-Audio – CA6
• Potência Crest-Audio – CA9
• 02 Monitores Eletro-Voice
• 02 Sides

Observação:
1 – É importante que o equipamento venha acompanhado de respectivo multicabo com 24 vias, da cabine até os bastidores .
2 – Os microfones com fio serão utilizados com pedestais e seus cabos devem ser longos, permitindo que sejam manipulados em toda a extensão do palco.

LUZ
• 24 Refletores de 1000 W Par 64 – Foco 2.
• 36 Refletores de 1000 W Par 64 – Foco 5.
• 12 refletores PC de 1000 W.
• 12 refletores Tipo Fresnel de 1000 W.
• 18 Elipsoidais ETC 26¼ .
• 24 Set Lights Farcyc.
• 60 Circuitos Dimmer de 4.000 WATTS cada.
• 01 mesa de comando digital 60 canais para, no mínimo, 200 cenas. MARCA \ MODELO: ETC ESPRESSION 48/96 OU LBX 125 (STRAND LIGHT)

Observação: São necessárias 06 torres de pedo lateral e 04 técnicos para fazer a montagem.

PRODUÇÃO LOCAL
No sentido de agilizar o processo de montagem, solicitamos à produção local que providencie os seguintes itens com antecedência:
• 12 (doze) cadeiras e 01 (uma) araras para figurino.
Observação: as cadeiras e as araras serão usadas para contra-regragem dos figurinos e adereços, nas coxias.
• 01 (uma) Máquina de fumaça F-100.
• Água mineral para elenco e equipe técnica.

Observação: O espetáculo tem utilização de fogo no final da apresentação, sobre a cadeira gigante trucada com corda de amianto, com sistema próprio para abafar e apagar o fogo. É sempre conveniente a presença de um bombeiro na coxia durante o espetáculo.